Por Thiago Ribeiro

Quando olhamos para o estágio atual de desenvolvimento do Crowdfunding Social (ou Financiamento Coletivo de Causas) no Brasil, nos deparamos com uma realidade de grandes restrições. Por um lado, verificamos o despreparo da maioria das organizações para explorá-lo de forma consistente. Por outro, o predomínio de uma visão paternalista sobre o papel do Estado, que ecoa tanto nas pessoas, quanto nas instituições e acaba por restringir o alcance dessas ações.

Captar recursos através do financiamento coletivo pressupõe um esforço considerável e um investimento de tempo não desprezível para que se alcance os resultados desejados. Muitos se iludem e acreditam que seu projeto irá “viralizar” e se viabilizar como em um passe de mágica, mas essa não é a realidade.

Atualmente, menos da metade dos projetos que chegam a ser expostos pelas plataformas se financiam (sem considerar o grande número daqueles que não vão ao ar por falta de consistência). Os valores médios financiados ainda são baixos (de R$ 40 mil a R$ 50 mil), bem como a média das contribuições (até R$ 50,00) e há uma tendência de serem financiados os projetos cujos resultados sejam produtos tangíveis que beneficiem os apoiadores (CD, Livro, Show, etc), oferecidos como contrapartida (recompensa) ao seu apoio.

O que ocorre é que a base ainda é pequena e concentrada e que parte importante das pessoas com o perfil de doadores potenciais encontra-se fora das redes sociais (ou apenas possuem um perfil, mas não o movimentam). Por outro lado, mas no mesmo sentido, as organizações possuem baixa presença digital e um vínculo muito frágil com sua rede de apoiadores tradicionais.

A taxa de conversão (pessoas que apoiam financeiramente o projeto) varia de 3% a 5% das pessoas impactadas pelo projeto. O que significa que para que se viabilize um projeto com as características médias descritas, será preciso impactar ao menos 20 mil pessoas!

Mobilizar toda uma estrutura, organizar as ferramentas digitais, planejar uma campanha para, ao final, ter como resultado apenas um pequeno projeto financiado, faz pouco sentido para a maioria das organizações.

Por outro lado, se ela olhar estrategicamente para a ferramenta e conseguir visualizar o poder latente que poderá ser usado mais à frente, o esforço passa a fazer sentido.

Do ponto de vista da Soul Social, o principal componente que justifica um esforço nessa direção pode ser traduzido pelo princípio da “cauda longa” [1] da Curva de Pareto, definido por Chris Andersen – que resume de forma brilhante parte dos processos desencadeados no interior da rede mundial.

O que se conclui é que, com a ampliação do número de pessoas na Internet, o financiamento de um número crescente de Causas será viabilizado por grupos específicos de pessoas.

É com esse olhar estratégico, de antecipação de um movimento em evolução que a Soul Social se propõe a orientar e a capacitar as organizações interessadas em ampliar seu leque de opções de financiamento.

A ideia central é que, a partir da aplicação dos 4 Pilares do Crowdfunding Social (Proponente, Projeto, Poder e Plano), construa-se uma estratégia de captação de longo prazo que se paute no estabelecimento de novas formas de relacionamento com sua rede de apoiadores e isso vá criando as bases para o financiamento institucional (sem a necessidade de projetos específicos).

Para entender a mecânica desse processo, é preciso compreender que, mesmo entre as pessoas que apoiam os projetos, há uma heterogeneidade grande. Sem grandes reflexões, podemos classificar as pessoas em ao menos 03 grupos distintos:

Grupo 01 – Pessoas influenciadas por pedidos pessoais, ou ligação pessoal com o dono do projeto;

Grupo 02 – Pessoas interessadas na contrapartida;

Grupo 03 – Pessoas que se identificam com a Causa defendida pelo Projeto;

Para financiar projetos será preciso atrair os 3 grupos de uma vez, mas é para o Grupo 03, especificamente, que se deve focar no longo prazo. É com aqueles que se identificam com a Causa que a organização deve estabelecer uma relação duradoura, pois esse grupo será fiel e tenderá a apoiá-la em suas ações futuras.

Mobilizá-los para financiar um único projeto e depois abandoná-los não trará benefícios no longo prazo, pois implicará que, a cada tentativa de financiar um projeto a organização tenha de repetir todo o esforço inicial.

Ao contrário, se a organização estabelecer canais eficientes de comunicação e for capaz de cultivar essa relação, a cada novo esforço de captação, esse grupo crescerá e se fortalecerá, até que tenha corpo suficiente e estímulo para contribuir espontaneamente para a manutenção da organização.

Ainda, como efeito colateral positivo, conforme a sua rede vai se expandindo, maior será a atratividade da organização para o financiamento privado empresarial, pois maior será a visibilidade da marca no caso de um patrocínio.

Paralelamente às ações das organizações, a Soul Social, pelas características dos projetos financiados também agregará um conjunto cada vez mais homogêneo de pessoas que, gradativamente, ampliará as taxas de conversão para novos projetos sociais, artísticos, esportivos e culturais.

É nisso que acreditamos! É nesse sentido que trabalhamos!



[1] A curva de Pareto, também conhecida como curva ABC, mostra que há uma relação entre produtos e consumidores definida por uma proporção de 80-20, ou seja, 80% das pessoas se interessam, ou compram 20% dos produtos, e que o restante dos produtos (80%) é de interesse de apenas 20% das pessoas. Em vista disso, devido às restrições de estocagem e de custos, as empresas (antes da Internet) focavam suas estratégias nos 20% dos produtos que compunham 80% de suas receitas.
Com o advento da Internet, do e-commerce, do download (músicas, softwares, filmes, e-books, etc), e o crescente acesso da população a essas ferramentas, viabilizou-se a comercialização de produtos customizados que atendem aos interesses de 20% das pessoas que antes não poderiam ser satisfeitos.A redução de custos permitida pela ampliação do mercado, pelo barateamento dos custos de estocagem (muitos produtos são apenas Bits e Bites) e de acesso (aperfeiçoamento das ferramentas de busca) a essas pessoas, possibilitou a expansão da oferta para muito além do que era possível antes da Internet. A esse estiramento da cauda da Curva de Pareto, denominou-se “cauda longa”.
Do ponto de vista do Crowdfunding Social é possível pensar em um gráfico no qual se contrapõem Apoiadores x Causa e, sem dúvida, o resultado será muito próximo daqueles sugeridos por Pareto, segundo o qual, verificaremos que 80% das pessoas, apoiam 20% das causas, ficando os 80% das causas restantes sendo apoiadas por pequenos nichos de pessoas.

Comentários

  1. [...] Havia um tempo em que era assim. Ocorria em horários bastante oportunos para se receber um telefonema de desconhecidos: 8h da manhã de um sábado, 22h de uma sexta-feira, 12h30 em pleno almoço. Do outro lado da linha, alguém se identificava como parte da equipe de uma entidade assistencial. O objetivo da ligação: angariar recursos para a entidade via telefone. A impertinência do telefonema já era pré-determinante para negativa em colaborar. Resultado da iniciativa: alta conta de telefone e baixo retorno para a entidade. [...]

  2. [...] mencionamos no artigo Um olhar estratégico sobre o Crowdfunding Social é importante perceber que há ao menos 3 grandes grupos de motivação para as pessoas apoiarem os [...]

  3. [...] contribuir para a melhoria do seu relacionamento com as redes sociais e, se aplicados de forma estratégica e direcionada, ainda ampliar as oportunidades para além do financiamento de um projeto [...]

  4. [...] Entregue o prometido. A começar pelas contrapartidas! Execute seu projeto e comunique os apoiadores e o restante de sua rede dos avanços e resultados alcançados. Aproveite a oportunidade para manter sua audiência engajada e aumentar ainda mais sua credibilidade. Seja transparente e mantenha seu público sempre informado. Seja estratégico! [...]